|
Clínica
Médica dos Felinos
|
|
Conduta
Clínica Diante de Animais Portadores de Déficits
Locomotores por Enfermidades Nervosas
Dr.
Luiz Felipe Castro Graeff Vianna
Professor Titular de Clínica Médica Veterinária, UFRRJ,
PhD
Na prática clínica, é comum observarmos colegas com dificuldades
na condução do exame clínico de animais portadores de
dèficits na locomoção, que variam desde ataxia até o quadro
de tetraplegia.
Indùbtavelmente, eximindo-se de qualquer responsabilidade,
estas deficiências ainda são provenientes de sua baixa
qualificação profissional. Hoje, encontramos livros especializados
em todas as áreas da Clínica, mas, ainda continuamos a
formar um veterinário eclético, sem que o mesmo tenha
tempo e experiência profissional para o exercício da profissão.
Na Universidade parte destas especialidades são reunidas
sob a disciplina de Clínica Médica de Pequenos Animais
e não mais do que dois semestres, ou muitas vezes um,
são dedicados para a lecionação de um conteúdo por demais
extenso. A neurologia é embutida no meio de outros conteúdos
tais como: sistema digestivo, doenças respiratórias, etc.,
que nada tem haver com o sistema nervoso. Deste modo,
é praticamente impossível passar ao futuro clínico, conhecimentos
tão especializados e só resta ao veterinário, aperfeiçoar
ou mesmo, adquirir novos conhecimentos após a sua colação
de grau, através de cursos, palestras, mas, principalmente,
pela leitura sistemática de livros especializados.
O objetivo deste artigo é levar aos colegas um método
de exame clínico que possa-os auxiliar na condução de
um diagnóstico final e, consequentemente, no estabelecimento
de um tratamento específico nas deficiências da locomoção
por distúrbios nervosos. Para os formados a mais tempo,
cabe ressaltar que a neurologia não é mais ministrada
pelas enfermidades específicas e sim, através de síndromes.
Isto ocorreu por duas razões: primeiro que o aluno de
veterinária não era capaz de distinguir uma encefalite
de uma enfermidade medular pelos sintomas clínicos. Assim
sendo, não haveria razão para lecionarmos com os programas
antigos, onde se tratava de hemorragia cerebral, meningites,
encefalites, etc.
Em segundo lugar, o quadro clínico nas enfermidades nervosas
retrata o local da lesão e não, sua causa. Por exemplo:
há pouca diferença, ou as vezes nem existe, no quadro
clínico de um animal com lesão cerebelar causada por tumor,
hemorragia, inflamação ou por degeneração. Deste modo,
a lecionação da neurologia através das síndromes, parece-nos
bastante pertinente. É preciso identificar em primeiro
lugar, o local da lesão, através do reconhecimento das
síndromes, para então, numa segunda etapa, procurar através
dos meios auxiliares disponíveis (raios x, análise do
líquido cerebrospinal, tomografia, etc.) identificar a
causa da lesão. Na verdade, nem sempre é possível a conclusão
desta última etapa: falta-nos recursos ou a técnica pode
ser muito invasiva, não sendo esclarecedora e com grande
risco de complicação.
Ínicio
A HISTÓRIA
A história clínica é por demais importante. O aparecimento
de um quadro súbito pode ser sugestivo de traumatismos,
enfermidades vasculares ou metabólicas, enquanto, doenças
degenerativas e neoplasias, aparecem e evoluem mais lentamente.
Entretanto, nem sempre é possível confiar nas informações
prestadas pelo cliente: em muitas ocasiões ele não estava
presente ou não prestou a atenção devida. Deve-se também,
evitar de conduzir o cliente as respostas: é preciso deixá-lo
à vontade para narrar suas observações desde o começo
até o momento atual.
Ínicio
O EXAME CLÍNICO
Não se pode também aqui, desprezar o exame clínico geral
do animal. Durante a sua realização, poderemos encontrar
outros sintomas e até mesmo, a justificativa para os sintomas
nervosos. Por exemplo: a insuficiência urinária pode ser
a causa de polineuropatias e durante algumas encefalites
virais, é possível observar sintomas em outros sistemas
(digestivo, respiratório, etc.).
Ínicio
O EXAME NEUROLÓGICO
Primeiramente, em um animal com ataxia dos quatro membros
ou com tetraplegia, é preciso pesquisar a presença de
sintomas chamados de "sinais de cabeça", isto é, qualquer
sintoma de lesão localizada acima do forame magno. Cegueira,
nistagmo, convulsões, alterações comportamentais, distúrbios
de nervos cranianos (disfagia, disfonia, estrabismo, paralisia
facial, etc.) e alterações vestibulares (inclinação da
cabeça, quedas rolamentos), são exemplos de sintomas considerados
como "sinais de cabeça" e localizam a lesão acima do forame
magno.
Se o animal em exemplo, não apresenta qualquer sintoma
considerado como "sinal de cabeça" e é tetraplégico ou,
em menor gravidade, está com ataxia dos quatro membros,
há ainda três possibilidades. No primeiro caso, a lesão
pode estar localizada no cordão espinhal cervical (C1-C5).
Se isto for verdadeiro, o animal deverá apresentar os
reflexos espinhais, de normais a aumentados, nos quatro
membros (tríceps, bíceps e extensor carpo-radial para
os membros anteriores e, femural, tibial cranial e gastrocnêmio
para os posteriores). A este aumento dos reflexos espinhais,
os autores mais modernos costumam denominar de reflexo
do neurônio motor superior (NMS).
No segundo caso, a lesão pode estar localizada no cordão
espinhal cérvico-torácico (C6-T2). Como este segmento
é responsável pela inervação dos membros anteriores, haverá
diminuição ou perda dos reflexos destes membros e isto
é chamado de reflexo do neuônio motor inferior (NMI),
com os reflexos dos membros posteriores normais ou aumentados
(NMS). Nestas duas possilibidades de lesão, como a inervação
simpática do olho desce até o nível de T2, o animal deverá
também apresentar a Síndrome de Horner (enoftalmia, miose
persistente e prolapso da nictitante).
A terceira possibilidade é da lesão envolver todo o cordão
espinhal ou todas as raízes nervosas ou ainda, os nervos
periféricos. Em ambos os casos, haverá perda ou diminuição
dos reflexos (NMI) dos quatro membros, entretanto, no
último caso, ou seja, na lesão nervosa periférica, as
enfermidades frequentemente envolvem, além dos nervos
espinhais, os nervos cranianos, sem outros "sinais de
cabeça". Nestas doenças há mais fraqueza do que propriamente
paralisia e chama a atenção, a atrofia muscular precoce.
As lesões difusas do cordão espinhal costumam também comprometer
outras áreas acima do forame magno, sendo deste modo,
acompanhadas por outros "sinais de cabeça".
De fato, há ainda outra possibilidade no animal tetraplégico
ou com fraqueza dos quatro membros, a da miopatia difusa.
Neste caso, o exame neurológico nada revela de anormal,
exceto a impossibilidade de locomoção, entretanto, há
dor a manipulação dos membros e atrofia muscular. O perfil
bioquímico de enzimas específicas do músculo no soro sanguíneo
(CPK, LDH e TGO) confirma o diagnóstico. A biópsia também
é de valor diagnóstico.
No caso de animais paraplégicos ou paraparéticos, por
lesões toraco-lombares (T3-L3) e lombossacrais (L4-S2),
não se observam alterações nos membros anteriores. Isto
pode ser melhor verificado aplicando-se a prova do carrinho
de mão. No primeiro caso, em lesões entre T3 e L3, como
daí não parte qualquer inervação para os membros posteriores,
as alterações encontradas nos membros posteriores serão
manifestadas por lesão dos NMS, que transitam neste segmento,
isto é , haverá aumento dos reflexos espinhais nos membros
posteriores sem atrofia muscular. Se esta última acontecer,
ela será tardia. Há incontinência espástica de urina e
fezes. Nas lesões entre L4-S2, como parte daí a inervação
para os membros posteriores e esfincteres, haverá perda
do tonus muscular, com diminuição ou perda dos reflexos
(NMI), acompanhados por atrofia muscular precoce. Há incontinência
urinária passiva de extravassamento. A motilidade da cauda
poderá estar comprometida. Como síndromes, o quadro clínico
pode não ser completo.
As monoplegias são sugestivas de lesão nervosa periférica.
Como há também lesão de NMI, ocorre perda do reflexo e
atrofia muscular precoce. Aqui, a perda do reflexo localiza
a lesão. Por exemplo: a perda do reflexo patelar indica
envolvimento do nervo femural. Neste caso, haverá também
atrofia do músculo quadríceps femural.
Ínicio
CONCLUSÕES FINAIS
Na prática clínica, nem sempre é fácil a distinção A priori
da síndrome neurológica presente. Há muitos matizes e
a título de exemplos, em compressões toraco-lombares graves,
poderá surgir a postura de Schiff-Sherrington e na síndrome
lombossacra, pode predominar alterações nos membros posteriores
ou nos esfincteres, dependendo da altura da lesão. Consequentemente,
se faz necessário o exame seriado, pelo menos a intervalos
semanais, não só para determinar o local da lesão e sua
causa, como também para acompanhamento da evolução do
processo.
Após realizado o exame neurológico, pode ocorrer do veterinário
não conseguir implicar apenas um local de lesão que justifique
todo o quadro clínico observado. Isto acontece nas enfermidades
que causam lesão difusa ou multifocal do sistema nervoso.
São elas: as doenças inflamatórias, degenerativas e metabólicas.
Ao contrário, nos granulomas, nas enfermidades vasculares,
neoplásicas e nos traumatismos do sistema nervoso, as
lesões são focais. Quando não constatarmos qualquer alteração
neurológica em um animal com dèficit locomotor, deve-se
considerar a possibilidade de estarmos diante de um caso
de distúrbio ortopédico. Finalmente, depois de localizada
a lesão, considerando a evolução da enfermidade e a extensão
da lesão, deve-se através dos meios auxiliares de diagnóstico,
procurar esclarecer a sua causa, objetivando estabelecer
um tratamento específico.
Dr.
Luiz Felipe Castro Graeff Vianna
Professor Titular de Clínica Médica Veterinária, UFRRJ,
PhD